quarta-feira, 25 de outubro de 2017

CONTO #002 - O FOTÓGRAFO


Quando conheceu o fotógrafo, havia acabado de ser dispensado pelas forças armadas. Planejava sair para procurar emprego e iniciar uma carreira. Pensava ser engenheiro civil. Precisava passar no vestibular para cursar a faculdade.
Parou em frente a uma banca de jornal para ler as manchetes penduradas na lateral e lá estava ele agachado. Foleava uma revista de fotografia com muitas imagens e propagandas de equipamentos fotográficos. A fotografia naquela época não era ainda digital. 
Pisou sem querer em seu calcanhar. O fotógrafo esticou o pescoço em direção ao seu rosto para reclamar, mas no lugar da bronca, esboçou um sorriso.
Não o viu mais por aquelas bandas.
Resolveu mudar sozinho para a capital. Fez a matrícula no cursinho para ajudar no vestibular do próximo ano e precisava ajudar a pagar sua estada na república de rapazes que ficava perto da universidade. Tinha o dinheiro para os primeiros três meses. Havia guardado de um bico como ajudante de seu tio, pintor de paredes.
Dividia o quarto com Jorge. Era grafiteiro de mão cheia, mas não era muito apegado aos estudos. O pai era um solteirão abastado que morava em Manaus e pagava as despesas de longe para não ter contato com o filho que considerava problemático.
Quando estava de saco cheio com as brincadeiras de Jorge e dos outros rapazes da república, pegava o ônibus e ia para a Avenida Paulista. Ficava horas na livraria do Conjunto Nacional e sentava para ler sem pagar os livros que interessavam ou que precisava para estudar.
Estudar no quarto da república nem sempre era tarefa fácil. A concentração ia para o espaço quando Jorge resolvia iniciar uma guerra de travesseiros sem precedentes. Mas naquele dia o clima estava favorável, já que ele havia ido ao shopping com os outros. A casa estava vazia. Subiu pelas escadas de madeira e entrou no quarto. Enquanto procurava pela apostila do cursinho, viu uma folha arrancada de caderno e um envelope sobre a escrivaninha. A caligrafia era perfeita, traços arredondados que chamavam a atenção até de um analfabeto.
Pegou a carta e começou a ler. Curiosidade apenas. Viu que tratava de um primo de Jorge que passaria um final de semana na república enquanto Jorge viajaria para visitar o pai.
Não deu importância e foi estudar.
O momento de introspecção não durou por muito tempo. Os rapazes da república chegaram falando em alto volume de voz e gargalhando muito, batendo objetos, sacudindo as latinhas de spray com tinta colorida. O tom da conversa deu a entender que haviam escapado da polícia enquanto desenhavam no muro de um parque. A situação os divertia.
Jorge entrou no quarto, cumprimentou com um aceno e olhou fixamente para as paredes. Chacoalhava a latinha como se fosse um T.O.C. sem que houvesse motivo. Mas o brilho em seu olhar denunciava bons pensamentos.
No outro dia, antes que Jorge voltasse da rua, estudou bastante.
A rotina consumia os dias. Os três meses iam passar e não havia arrumado um emprego ainda. Começou a fazer alguns bicos. Ora na floricultura do cemitério, ora como ajudante de pintor de paredes ou cobrindo o horário de almoço do jornaleiro da esquina. Ali tirava uns trocados para o almoço e para os livros.
Em uma sexta-feira cismou ter visto o fotógrafo olhando para as revistas expostas na vitrine da banca. Via pelo vidro lateral entre as publicações apenas um vulto, isso quando as frestas não deixavam vazar algum detalhe, como um olho, uma parte dos lábios, a mão... Ele foi embora e deixou a dúvida. Percebeu que não esquecera aquele sorriso que o havia marcado desde sua cidade natal.
Teve uma primeira namorada no colégio e só. Acabaram logo que passou a festa de formatura. Ela foi viajar para o litoral com uns amigos nas férias e ele não gostou.
Naquela fase da vida tinha um monte de ideias confusas na cabeça, muitas decisões a tomar para poder seguir em frente. Não conseguia precisar quais eram objetivamente, mas sabia que estavam ali.
Conheceu a garota em uma festa de rodeio que acontecia em sua cidade e descobriu que estudavam na mesma escola. Ganhou da moça um livro com poemas de Bilac que lia sempre quando estava triste. A solidão fazia lembrar os únicos versos que havia decorado: “...e conversamos toda a noite/enquanto a via láctea,/como um pálio aberto/cintila.” Parecia preencher a solidão com eles. E ultimamente vinham com frequência em seu pensamento. Principalmente no momento em que deitava para dormir.
Os versos e o sorriso do fotógrafo apareciam para desejar boa noite. Ajudavam a pensar que o dia seguinte seria diferente, mas os dias eram sempre todos iguais. Jorge e os rapazes da república os faziam diferentes algumas vezes, mas não era exatamente como esperava que fossem.
No outro dia entraram três rapazes no quarto enquanto estudava. Arrastaram os beliches para o centro. Guardou os livros, pois haviam pedido que ficasse ali. Chacoalhavam as latinhas de tinta e entregaram uma em sua mão. Distribuíram uma parede branca para cada. Ficou com a da porta. Não sabia, mas no outro quarto os outros rapazes já trabalhavam. Outras latinhas com cores diferentes foram colocadas no chão. A cidade grande era cinza e o sonho daqueles rapazes era colorir o mundo de alguém. O dele era também. Mas sentia que não era capaz ou esperava por alguém que colorisse o seu mundo também. Não era artista, nem nunca quis ser. Mas botou na cabeça a ideia de pintar um céu com as estrelas de Bilac. Levar a noite para dentro daquele quarto seria a forma de expressar o que sentia. Estava livre para pintar o que quisesse. Começou escurecendo a parede com a tinta que trazia a cor do azul mais escuro. Havia sido uma escolha simples, mas não para quem não tinha a mínima intimidade com aquela arte. Já havia pintado paredes, mas não tinha feito desenhos nem pintado com latinhas de tinta.
Quando se deu por satisfeito, resolveu abandonar aquilo e ir até o outro quarto para ver o que estava sendo feito por lá.
Entrou e perguntou por Jorge. Um dos rapazes baixou a máscara que cobria sua boca e nariz e respondeu que Jorge tinha ido viajar para visitar os pais e que um primo seu ficaria com eles naquele fim de semana.
Um rapaz que pintava uma parede com o rosto de Marilyn Monroe, um retrato em preto e branco virou para ser apresentado. Os olhos dele brilharam. Olhos irreconhecíveis com o brilho das estrelas de Bilac. Colocou a latinha no chão e baixou a máscara ao pescoço também. Sorriu ao ser apresentado. O sorriso era inconfundível. A boca como a via láctea escura e cheia de pontos brancos brilhantes. A saliva como a cauda dos cometas cintilavam e formavam um rastro.
Os equipamentos do fotógrafo e o portifólio deixado sobre uma mesinha de canto confirmava tudo. Chegara para uma exposição de seus trabalhos ou para conseguir outros cliques ainda mais interessantes. Não era isso que importava. O curioso do encontro é que vestiam camisetas semelhantes. Ambas remetiam ao céu noturno e cheio de estrelas de Bilac.









sexta-feira, 25 de agosto de 2017

#096

Seu esqueleto não perdoou sua espera até transformar em pó.

CONTO #001 - O SEBO

Estava entediado. Saí de casa sem rumo e comecei a andar pelo bairro. Assim. Sem destino. Queria respirar outros ares, caminhar por outros lugares. Estava cansado do bairro onde morava. Resolvi entrar no metrô. Já no trem lembrei de um lugar que daria distração e me faria esquecer o tédio. Desci do trem e subi as escadas. Na saída o sol ofuscou meus olhos que logo se acostumaram e me deixaram ler o letreiro do outro lado da rua. Era ali mesmo. Fazia vinte anos que não entrava naquele lugar. Atravessei a rua junto com a multidão. Na esquina uma moça encostada no poste e vestida com uma saia mínima de couro e salto alto sorriu para mim. Dava para perceber a maquiagem reforçada em plena luz do dia. Parei para observar, mas recusei comprar seus trinta minutos. Não acabaria com a minha apatia.  E entrei no sebo. Era o maior e mais conhecido da cidade. Olhei para a esquerda, próximo à porta, estava sentado em sua mesa o proprietário. Estava concentrado em alguns papéis. Fiquei surpreso. Era a mesma imagem de vinte anos atrás. Pensei que àquela altura já não estivesse mais vivo. Mas ele estava lá, sentado, com uma camisa de manga comprida, branca e com listras escuras, óculos repousados no peito e pendurados no pescoço e paletó pendurado no encosto da cadeira. Prossegui. Poucas pessoas nos corredores. Meu nariz começou a coçar. A rinite avisou que estava em área proibida, não era bom ficar por muito tempo. Difícil. Quando entrava ali ficava horas a fio procurando algo que geralmente não sabia o que era. Pequenas placas amarelas feitas de papel cartão escritas com pincel atômico vermelho indicavam as seções. Achei a sessão de Literatura Estrangeira. Comecei do nada a procurar por um livro de Dostoievski que tivesse um preço bom. Estava desempregado e não tinha muito dinheiro. Ainda bem. Se tivesse, gastaria tudo ali. Gostava de comprar livros, mesmo que fosse só para ficar na estante. Mesmo que nunca pensasse em ler um determinado livro, comprava por um motivo qualquer. Encontrei a letra D e comecei a procurar pelo autor. Uma voz feminina e jovem quebrou o silêncio. Parei para ouvir:
-Eu quero o livro David Copperfield.
-Vou ajudar você a encontrar. – prontificou-se o funcionário.
-Mas eu quero em inglês.
-Inglês britânico ou americano? – perguntou o rapaz.
-Tanto faz. –respondeu a moça.
-Vem aqui! – chamou o funcionário. – Charles Dickens fica ali, atrás daquela estante. – e apontou.
Ouvi os passos no assoalho de madeira. Não resisti e dei uma espiada entre os livros. A moça era bem jovem. Tinha dezesseis ou dezessete anos, no máximo. Vestia uma saia curta que deixava as pernas brancas à mostra. E voltaram a conversar.
- Nesta estante estão todos os livros em inglês. Pelo jeito não temos David Copperfield.
-Mas eu visitei o endereço do sebo na internet e ele estava catalogado. –tentou insistir a moça.
-Anotou o número indicado no catálogo? – perguntou o funcionário.
-Não.
-Sabe me dizer se é um pocket book? – fez outra pergunta.
-Também não sei.
Entre os livros pude perceber a moça ficar enrubescida. Os olhos azuis e arregalados brilhavam. Ela pressionava um caderno universitário contra os peitos.
-Podemos ir até a seção de pocket books para ver se encontramos o livro. O que acha?
Espirrei e não ouvi a resposta da moça.
Continuei tirar os livros da estante e a folheá-los despretensiosamente.
Meus olhos começaram a ficar irritados. Lacrimejavam e ficavam vermelhos. A cada minuto espirrava mais. A garganta secava e fazia com que eu tossisse sem parar. O nariz coçava muito. Definitivamente a poeira e os ácaros eram meus maiores inimigos. E, infelizmente, escolhiam como esconderijo o meu mais recorrente objeto de desejo. Levantei para procurar um bebedouro. Não havia nenhum. Fui até a entrada perguntar se vendiam água mineral. Não vendiam. Os sintomas diminuíam quanto mais tinha contato com o ar de fora. Quando, finalmente, tudo havia voltado ao normal, resolvi voltar para entre os livros. Parei na seção dos livros “mais procurados”. Assim indicava a placa na estante: Muitos Harry Potter, Stephenie Meyer, Nicholas Sparks, Rick Riordan, alguns Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Peguei um Sagarana para reler a história do Augusto Matraga, meu conto predileto. Não consegui iniciar. Dois funcionários subiram pela escada e começaram a discutir:
-O que faço agora?
-Se vira!
-Sumiram com o Érico Veríssimo.
-Alguém roubou.
-Eu estava de olho nele desde ontem quando disse que vinha buscar.
-Desce e fala para o Moisés.
-O “seu” Moisés vai me matar quando eu falar que roubaram o Érico. O que eu faço?
-O homem tá lá com ele e quer o livro. Desce e explica pros dois.
-Me ajuda a procurar aqui nos “mais vendidos”!
Pediram licença. Me afastei um pouco. Começaram a procurar.
A presença deles me incomodavam. Resolvi procurar outra seção.
Entrei no corredor só tinha livros em outras línguas, livros técnicos, de anatomia, filosofia, química, matemática. Virei para a direita e ouvi aquela voz novamente.
-Para! Não pode fazer isso comigo!
-O que você vai fazer? Vai chamar o patrão? Não ligo. Já tenho outro emprego em vista.
-Vou chamar a polícia. Me solta!
Olhei para o canto mais escuro e o funcionário estava sobre a moça que queria o Charles Dickens em inglês. Ele tentava beijá-la e ela, mesmo presa pelos braços e pelo peso do corpo do rapaz desviava a cabeça. Voei em cima dele e puxei-o pela gola da camisa.
-O que você está pensando? –perguntei sem pensar.
-Desculpa! Não é o que o senhor está...
-E você? Está bem? –perguntei para a moça.
-Sim. – ela respondeu. Muito obrigada. – agradeceu e saiu.
-Pensa no que você fez? Se ela chama a polícia, você vai parar atrás das grades. Ela deve ser menor e neste caso sua situação fica ainda mais complicada. Só não te levo eu para a delegacia e não entrego você para o “seu” Moisés porque também não sou nenhum santo e não pretendo prejudicar ninguém. Mas vê se da próxima vez segura seus instintos e faz o seu trabalho, apenas. – o sermão foi dado para o jovem que não tinha mais de vinte e três anos.
-Está bem. Obrigado. E desculpa!  -estranhamente ficou grato e desculpou-se.
Naquele momento eu quis ir embora. Já havia praticado a boa ação do dia. Ainda estava desmotivado. Parei perto da seção de poesias. Pensei em ficar, mas o nariz começou a coçar mais uma vez. Acontecia também sempre que ficava nervoso. Não havia encontrado um bom livro para me distrair. Já estava ficando tarde e quando chegasse em casa teria muitos episódios para lembrar.
Desci a escada e saí. “Seu” Moisés estava no mesmo lugar de sempre, do mesmo jeito. Perto dele, o funcionário tentava explicar ao cliente o sumiço de Érico Veríssimo.

Parei para aguardar a passagem dos carros e atravessar a rua. Encostada no poste, a moça sorriu para mim mais uma vez. Era a moça que estava à procura do David Copperfield em inglês no sebo. Pensei que fosse estudante da língua inglesa. O jeito de menina me fez acreditar também que era menor. Minha avó materna sempre dizia que as aparências enganavam. Fiquei surpreso. O tédio começou a desaparecer. Resolvi conversar com a moça e estava disposto a comprar os seus trinta minutos.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

#095

Macumbeiro "fake" e alcoólatra ditava os trabalhos para roubar a pinga na madrugada.